Característica da compaixão
(Homofobia e racismo)
Brennan Manning, O Impostor Que Vive Em Mim, p. 82-84.

A homofobia e o racismo estão entre as questões morais mais sérias e
inquietantes desta geração, e tanto a Igreja quanto a sociedade
parecem nos limitar a alternativas antagônicas. A moralidade liberal
de religiosos e políticos de esquerda é equivalente ao moralismo
beato dos religiosos e políticos de direita. A aceitação acrítica de
qualquer uma dessas linhas partidárias é uma forma de abdicação
idólatra à essência da identidade como filho de Deus. Nem a
delicadeza liberal nem a truculência dos conservadores focam a
questão da dignidade humana, sempre vestida com farrapos. Os filhos
de Deus encontram uma terceira via. São guiados pela Palavra de Deus
e apenas por ela. Todos os sistemas religiosos e políticos, tanto de
direita quanto de esquerda, são obras de seres humanos. Os filhos de
Deus não venderão seu direito à primogenitura por nenhum prato de
ensopado, seja ele conservador ou liberal. Eles se apegam a
liberdade em Cristo para viver o Evangelho ― não se permitem
contaminar pelo lixo cultural, pela imundície política ou pelas
hipocrisias enfeitadas de discursos religiosos.
Os que estão inclinados a entregar os gays aos torturadores não
podem reivindicar nenhuma autoridade moral sobre os filhos de Deus.
Durante o tempo que viveu na terra, Jesus via essas pessoas obscuras
como as responsáveis pela corrupção da natureza essencial da
religião. Esse tipo de religião restrita e separatista é um lugar
isolado, um Éden coberto de mato, uma igreja na qual as pessoas
vivem em uma alienação espiritual qua as distancia de seus melhores
talentos humanos. Buechner escreveu:
— Sempre soubemos o que estava errado conosco: a maldade, até mesmo
no mais civilizado entre nós; nossa falsidade, as máscaras atrás das
quais mantemos nossos reais interesses; a inveja, forma pela qual a
sorte das outras pessoas pode nos aferroar como vespas; e todo tipo
de calúnia, o modo como ridicularizamos uns aos outros, mesmo quando
nos amamos. Tudo isso é de uma baixeza e de um absurdo infantis.
“Livre-se disso”, diz Pedro. “Cresça na salvação. Em nome de Cristo,
cresça.” (Frederich Buechner, The Clown in the Belfry, p.146)
A ordem de Jesus para nos amarmos uns aos outros nunca se limita à
nacionalidade, ao status, à etnia, à preferência sexual ou à
amabilidade inerente ao “outro”. O outro, aquele que reivindica meu
amor, é qualquer um a quem sou capaz de reagir, como ilustra com
clareza a parábola do bom samaritano. “Qual destes três você acha
que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”,
perguntou Jesus. A resposta foi: “Aquele que teve misericórdia
dele”. Jesus disse: “Vá e faça o mesmo” (cf. Lc 10:36-37, NVI).
— Dê uma olhada na rosa. É possível para ela dizer: “Vou oferecer
minha fragrância às pessoas boas e negá-la às más”? Ou dá para
imaginar uma lâmpada que retem seus raios luminosos para o ímpio que
busca andar em sua luz? Só poderia fazer isso se deixasse de ser
lâmpada. E observe o modo inevitável e indiscriminatório pelo qual a
árvore fornece sombra a todos, bons e ruins, jovens e velhos,
grandes e humildes; os animais, os humanos e a toda criatura
vivente, mesmo aquele que procura cortá-la. Esta é a principal
característica da compaixão: seu caráter indiscriminado. (Anthony
DEMello, The Way to Love, 1991, p. 77)